quinta-feira, 25 de julho de 2013

SÍNDROME DOS OVÁRIOS REMANESCENTES: A CAUSA DA DOR E DA VOLTA DA ENDO PARA AQUELAS QUE NÃO TEM OS OVÁRIOS!!




Já faz tempo que quero colocar este artigo. Eu vejo muitas mulheres que fazem a retirada de todos os órgãos reprodutores, inclusive, dos ovários queixando-se de muita dor. Piração? Loucura? Ela está mentindo ou inventando dores? Ela é preguiçosa? É a Maria das Dores? Nãããããooo!!!! Eu fico louca com essas mentes ignorantes. Isso pode ser possível, sim. E não é invenção de mulher preguiçosa. É a Síndrome do Ovário Remanescente. Aliás, muitos médicos não acreditam nisso, por isso fiz questão da tradução deste artigo do médico americano, o doutor Ken Sinervo, do CEC, Center for Endo, o centro americano fundado há mais de duas décadas,  o qual fez uma homenagem a mim (como anjo endo) e ao blog, após  premiação do TopBlog Brasil 2012. Eu acompanho alguns casos bem de perto e este texto pode elucidar bastante. Tem dias que que essas mulheres não conseguem nem andar e muito menos levantar da cama de tanta dor. Muitas ainda são fortes e tentam fazer as tarefas da casa, como almoço, limpeza, lavar e passar roupas. Mas como está descrito abaixo, realizar tarefas simples do cotidiano que geralmente é prazerosa para quem as faz, torna-se uma tortura, um pesadelo diário inexecutável. Daí, a simples pergunta: “Mas você não retirou tudo? Por que tanta dor?” Para um leigo em endometriose, para quem não entende nada do assunto, pode parecer que a mulher está inventando mesmo, mas não está. Mas sei que muitos médicos afirmam isso também. Olha se fosse comigo, eu juro, não responderia pela minha atitude. Até porque já falamos aqui que a endo é uma das 10 doenças mais dolorosas que existe. 

Agora assumir que ele (o médico) “fez cagada“ e não retirou a parte necessária para não provocar essa síndrome, eles não assumem. Não adianta retirar todos os órgão se não retirarem todos os órgãos, e em alguns casos de aderência dos ovaries na parede, é preciso retirar essa parte tambem. Sim, a doença pode voltar nesse caso, mesmo sem os ovários. Ficam colocando a culpa na coitada da mulher que, geralmente, nesses casos é desacreditada por todos, da família aos amigos, e até desses que se dizem especialistas. Por isso, quando for preciso fazer a cirurgia, tem de saber tudo sobre a vida acadêmica e profissional do médico. Para isso existe o currículo lattes, que é público e todo mundo pode ver. E quando a mulher pensa que retirou os dois ovários e um belo dia faz um simples ultrassom e descobre que um de seus ovários está lá. Um absurdo, mas acontece muito isso. Bom, vou deixar com quem realmente entende do assunto, para vocês descobrirem que um dos motives que a endo é tão enigmática. E lembre-se: escolher bem quem vai te operar, que além de conhecer a doença, é preciso muito conhecimento e muita técnica em laparoscopia, é fundamental para uma endomulher ter a tão sonhada qualidade de vida.A tradução deste artigo foi autorizada pela minha querida H.R.G., a mesma que prestou a homenagem a nós no facebook do centro, e que trabalha com doutor Sinervo, no CEC. Não se esqueça de preencher nossa Ficha de Inscrição para a Marcha de Um Milhão de Mulheres para Endometriose (a Million Women March for Endometriosis), a primeira marcha internacional de conscientização, um evento inédito nunca feito antes para nehuma doença, idealizado pelos Estados Unidos. Até o momento, 23 países saíram ás ruas simultaneamente no dia 13 de março de 2014. Beijo carinhoso!! Caroline Salazar


Síndrome do Ovário Remanescente
Ou quando você removeu seus ovários e descobriu que tem um deles no exame de ultrassom

Por doutor Ken Sinervo, do CEC
Tradução: Alexandre Vaz
Edição: Caroline Salazar

Outra potencial fonte de dor na mulher que teve uma histerectomia com remoção de um ou dois ovários, é uma condição chamada síndrome de ovário remanescente. Tipicamente, a paciente apresenta dor no quadrante inferior, de um lado ou do outro. A dor pode ser bastante forte. Pode desaparecer espontaneamente, ser persistente ou ocorrer com uma periodicidade mensal.

A chave para o diagnóstico é ver uma massa em ultrassom, TAC  (nota da editora: tomografia axial computadorizada) ou ressonância magnética. Tratando-se de um cisto, estará localizado na região onde se encontravam os ovários. As pacientes frequentemente dirão que não podem ter cisto ou tecido do ovário, já que estes foram removidos. O médico frequentemente concordará com a paciente. Quando uma massa consistente com um cisto de ovário é detectada após uma ooforectomia (remoção do ovário), certos testes podem confirmar a sua natureza ovárica. Se está fazendo terapia hormonal de substituição, pode parar durante um mês e se não tiver afrontamentos e outros sintomas da menopausa, isso sugere que o cisto tem natureza ovariana.

Também pode testar os seus níveis de estrogênio quando não estiver fazendo a terapia de substituição hormonal (tipicamente inferior a 30 pg/mL se tiver tecido ovárico presente). Bem como uma análise ao sangue chamada FSH (Hormônio de Estimulação Folicular) que apresentará também valores mais baixos do que o normal para uma mulher em menopausa. O resultado da FSH  (nota da editora: hormônio produzido pela glândula pituitária que fica no cérebro, e é o hormônio responsável pela ovulação) geralmente será maior que 30 se estiver em menopausa (o seu cérebro estará tentando simular a presença dos ovários, mas não verifica um aumento no estrogênio que acontece quando os ovários estão presentes. Então produz mais FSH para estimular os ovários a produzir mais estrogênio). Quando a mulher é jovem e os seus ovários estão intactos e a fertilização é viável, os níveis de FSH são geralmente inferiores a 10. Então, uma mulher que tenha tido uma histerectomia com remoção de ambos os ovários deverá ter um resultado de FSH superior a 30. Se não for o caso, então provavelmente terá remanescência do ovário.

Como ocorre então essa remanescência do ovário? Não existe crescimento de novo tecido ovariano. Ovário remanescente ocorre quando o ovário é dissecado abruptamente da parede pélvica quando está grudado ou fez uma cicatriz na referida da parede. Essa cicatriz é geralmente resultado da endometriose que causa inflamação, e o resultado dessas inflamações é a formação de aderências. Essas aderências frequentemente podem ser bastante densas e fica difícil separar o ovário da parede pélvica ou do intestino que pode ter cicatriz também.

Frequentemente o ginecologista usará instrumentos ou as próprias mãos se o procedimento for realizado com recurso a uma incisão grande, mas estarão deixando para trás pequenas porções do ovário na parede pélvica. Estes pequenos pedaços de tecido ovariano podem gerar o seu próprio suprimento de sangue e reagir como um ovário normal perante a estimulação por FSH, produzindo hormônios e gerando cistos ovarianos. A prevenção da ocorrência do ovário remanescente acontece com a remoção cuidadosa do tecido da parede pélvica também, já que geralmente existe aí endometriose, e a pretensão é minimizar a recorrência da doença. A maioria dos médicos não faz isso, e o resultado não é apenas o ovário remanescente, mas também endometriose nessa zona. A dor pélvica regressará meses ou até mesmo anos depois.

Já tratamos de uma centena de mulheres com ovários remanescentes. Todos foram controlados com sucesso com recurso a laparoscopia sem ser verificada a recorrência do ovário remanescente. Nunca tivemos um ovário remanescente em uma paciente em quem tenhamos removido um ovário, ou em histerectomia com remoção de um ou ambos os ovários. Tivemos no entanto uma paciente que teve uma remanescência mas em uma localização diferente, já que o tecido ovariano foi deixado em diferentes zonas da pelve e apenas um dos remanescentes estava ativo durante a cirurgia inicial.

A cirurgia para ovário remanescente pode ser muito exigente e se o médico não realizou algum destes procedimentos, existe um risco acrescido de complicações para a paciente, e aumenta a probabilidade de existência de ovário remanescente. Tivemos apenas uma paciente que necessitou de duas cirurgias adicionais para remoção dos restos antes de ter a cirurgia no CEC para finalmente os remover na totalidade. A razão pela qual estas cirurgias são difíceis tem a ver com o fato de que podem existir muitas cicatrizes e aderências que tornam a dissecação complicada, e o intestino pode também ter aderências aos restos bastante densas. Muitos ginecologistas serão relutantes em dissecar essas aderências densas pelo risco de lesão no intestino.

Fazemos dissecações delicadas no intestino de forma rotineira todas as semanas devido à natureza severa dos casos de endometriose que nos chegam, incluindo pacientes em grau IV de endometriose envolvendo o intestino. Esta competência única permite que confortavelmente restauremos a anatomia normal e dissequemos os restos do intestino.
Outro fator que faz com que esta cirurgia seja difícil para o cirurgião comum é que os restos geralmente estão nas cicatrizes da parede pélvica, e o ureter e os grandes vasos pélvicos passam nessa área. Muitos ginecologistas são relutantes em tratar essa área por receio de causar lesão a essas estruturas. A endometriose frequentemente afeta a região abaixo do ovário ou a parede pélvica (na verdade 30 a 40% das pacientes possuem endo nesses locais). Fazemos a excisão da endo nesses locais diariamente, e de forma rotineira dissecamos o ureter e os vasos pélvicos para que a doença possa ser removida com sucesso. Essa prática de operar no espaço retroperitoneal (área ocupada pelos ureteres e pelos vasos pélvicos) permite-nos dissecar confortavelmente os restos ováricos dessas estruturas com risco mínimo.

Se você tem dor pélvica recorrente após ter tido uma histerectomia para a sua endometriose, ou outras doenças em que os ovários possam ter sofrido lesões e aderido a outras estruturas, valerá o esforço fazer um ultrassom e análises de sangue (níveis de estrogênio e FSH) para despistar a existência de restos de tecido ovariano. Se tem histórico de endometriose, dor recorrente e não existe a possibilidade da existência de restos, poderá ser devido a endometriose persistente devido a um tratamento menos correto quando realizou a sua histerectomia.

Fonte: CEC

2 comentários:

  1. Muito muito esclarecedor! Obrigada! Eu farei um video em breve e tenho um dos ovários aderidos ao reto. Também tenho adenomiose...então escolhi meu cirurgião a dedo dessa vez, pq o outro, por falta de competência, me abriu e fechou. Mas com certeza, será pauta da minha consulta com meu meu médico, nessa próxima semana, para saber qual será a conduta médica. Um grande bjo.

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  2. Bom saber disso! Sou uma sofredora, não aguento mais!!!

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