quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

OS 10 MOTIVOS PORQUE AINDA ACREDITAMOS QUE A ENDOMETRIOSE VEM DA MENSTRUAÇÃO RETRÓGRADA!

imagem Clínica Pelvi 

Em mais um texto exclusivo o doutor Alysson Zanatta lista os 10 motivos pelos quais ainda acredita-se que a endometriose é causada pela teoria de Sampson, mais conhecida como  menstruação retrógrada. Tanto o doutor Alysson quanto o doutor David Redwine batem na mesma tecla: os médicos apenas irão saber tratar a doença quando eles souberem a causa. Isso parece lógico, não!? Pois é, mas infelizmente não é o que acontece. O que vemos hoje em dia é uma grande reincidência da doença, mulheres perdendo seus órgãos reprodutores, muitas vezes por erro do médico, pois é mais fácil retirar os órgãos que a doença. Precisamos mudar este quadro no Brasil e isso só é possível com a informação, mas não com qualquer informação, mas sim com a correta. Espalhe a correta conscientização da endometriose compartilhando os textos do A Endometriose e Eu. Beijo carinhoso! Caroline Salazar
Por doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Os 10 motivos porque ainda acreditamos que a endometriose seja causada pela menstruação retrógrada.


Olá queridas leitoras do Blog A Endometriose e Eu.
Em artigo recentemente traduzido “Samspon estava errado?” (leia a parte 1 e a parte 2), o doutor David Redwine discorre sobre a teoria da menstruação retrógrada como explicação para a origem da endometriose. Essa teoria foi proposta há quase 100 anos por John Samspon, e hoje ainda é a teoria mais aceita para explicar a doença.
No artigo, o doutor Redwine explica as múltiplas falhas dessa teoria, e a sua completa falta de comprovação científica. Ao final, sintetiza os achados de outros pesquisadores (alguns que antecederam John Sampson) e propõe que a teoria da metaplasia celômica pode explicar com maior exatidão os mecanismos da doença. Segundo essa teoria, células indiferenciadas presentes desde o período embrionário (quando as mulheres ainda estão se formando no útero de suas mamães) se transformam, sob estímulo de estrogênio e ao longo da vida da mulher (talvez até os 25 a 35 anos de idade), nas lesões de endometriose que identificamos na mulher adulta. Há de se destacar que o Dr. Redwine escreveu esse artigo antes de surgirem os primeiros estudos que comprovaram a presença de endometriose em fetos (em 2009), o que reforça ainda mais a teoria da metaplasia celômica (ou de doença de origem embrionária que passa por metaplasia celômica). E, diferentemente da invasão tecidual por células da menstruação, o achado de endometriose em fetos é um achado de verdadeira comprovação científica.
Mas, se temos provas que existe endometriose em fetos, e se por outro lado não temos provas que células endometriais refluídas com a menstruação possam “invadir” os órgãos e se transformarem em endometriose, porque ainda acreditamos que a menstruação seja a causa da endometriose?
Há um conhecido ditado que diz: “Uma mentira repetida várias vezes torna-se uma verdade”. Vejam os 10 motivos pelos quais a mentira da menstruação retrógrada como causa da endometriose tornou-se, infelizmente, uma verdade:
1 - O útero sempre foi a causa dos problemas das mulheres: na idade média, acreditava-se que ó útero era um órgão que se movia pelo corpo, um ser voraz, e que quando não tratado adequadamente, manifestava sua ira na forma de dores e doenças. Uma das doenças era a histeria ou loucura. Histeria é derivada de histero, que significa útero em grego. Ou seja, a loucura seria causada pelo útero.
As cólicas e os sangramentos excessivos significavam que o útero precisava ser “alimentado”, e recomendava-se atividade sexual como forma de tratamento. Em suma, todos os esforços deveriam ser feitos para acalmar o útero.
 A ideia de que o útero seja o grande responsável por doenças femininas é viva e muito presente no dia de hoje. Prova é que a histerectomia (cirurgia de retirada do útero) é a cirurgia ginecológica mais realizada no mundo. A histerectomia costuma ser recomendada para diversas causas de dor pélvica, mesmo quando não há causa identificada de doença no útero, como é o caso da endometriose. Muitas mulheres persistem com dores após a histerectomia, mostrando que o útero não era a causa da doença.
2- Os sintomas da endometriose costumam ser mais intensos durante a menstruação: a dismenorreia (cólica menstrual) é o sintoma típico da endometriose, especialmente quando acompanhada de sinais vagais (náuseas e vômitos, queda de pressão, sensação de desmaio). Além disso, lombalgia, dores nas pernas, alterações intestinais (intestino “mais solto”) e urinárias são mais intensas e frequentes durante o período menstrual. Portanto, é fácil deduzir que a causa das dores seja a menstruação.
Acredita-se que durante a menstruação a endometriose estaria “aumentando”, estaria “se espalhando” pela pelve (LINKAR TEXTO SO REDWINE). Fato é que muitas mulheres com endometriose veem a menstruação como um fantasma, e sentem que sua doença está aumentando a cada mês que menstruam, sentindo pânico por menstruarem.
Felizmente isso não acontece. Como destacado, não há provas do evento básico que explicaria a menstruação retrógrada como causa da endometriose: a capacidade da célula endometrial proveniente da menstruação aderir e invadir os órgãos da pelve.
3- Os sintomas da endometriose costumam melhorar com medicações hormonais que suspendem a menstruação: os anticoncepcionais, na forma de pílulas, injeção, dispositivos intrauterinos (DIU) ou outros, costumam melhorar as dores causadas pela endometriose, e até mesmo fazê-las desaparecerem. Assim, se a mulher interrompe sua menstruação, e se ao mesmo tempo as dores melhoram, conclui-se que a causa das dores seja a menstruação. Essa conclusão costuma ser extrapolada ao ponto de se dizer que as medicações estão “tratando” a doença, fazendo-a “diminuir ou desaparecer”.
Sim, é fato que os hormônios podem controlar a dor (entretanto, com respostas variáveis e temporárias), e eles podem ser importante ferramenta no manejo da endometriose. Mas infelizmente nenhuma medicação hormonal é capaz de tratar a endometriose, tratá-la no sentido de erradicá-la, fazê-la desaparecer. O principal efeito é no controle da inflamação que ocorre nas lesões. Mas as lesões persistem independentes do tempo e de qual hormônio é utilizado. Seria mais correto afirmarmos que as medicações são capazes de controlar a dor da endometriose, total ou parcialmente.
4 - Os sintomas da endometriose costumam desaparecer durante a gestação e a amamentação: aqui, o raciocínio é o mesmo para o uso de medicações que suspendem a menstruação. Mulheres grávidas, ou que estejam amamentando, não costumam ter dores de endometriose.  Assim, conclui-se da mesma forma que a menstruação estava sendo o motivo da doença, pois, como houve a gestação e a amamentação a menstruação foi suspensa naturalmente, então as dores melhoraram.
Outra extrapolação dessa teoria (e mito) é que a gravidez “trataria” a endometriose. Infelizmente (e novamente), isso não acontece. As lesões de endometriose persistem exatamente iguais após a gestação, podendo estar menos inflamadas e até mesmo deixarem de causar dor. Mas ainda estarão lá, presentes.
5 - Existem diferentes tipos de endometriose, mas elas são interpretadas de forma única: há três tipos de endometriose: (a) peritoneal, (b) profunda, e (c) ovariana. Endometriose peritoneal é aquela lesão superficial e identificada apenas durante procedimentos cirúrgicos. Endometriose profunda é aquela que forma nódulos (enrijecidos, irregulares), capazes de serem detectados durante o exame ginecológico e por profissional capacitado no exame de imagem (ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética da pelve). Já a endometriose ovariana é aquela presente na forma de cistos achocolatados, os endometriomas, que são facilmente detectados à ultrassonografia, porém já representando uma fase avançada da doença. Os endometriomas são consequência da endometriose profunda. Praticamente não existe endometrioma sem endometriose profunda (associação maior que 99%)
Mas apesar das lesões terem formas e comportamentos distintos, elas são estudadas e interpretadas como se fosse uma única doença. Quase todos os estudos científicos são realizados com endometriose peritoneal, onde é possível sim reproduzir e mimetizar uma lesão de endometriose de forma experimental. As conclusões obtidas nos estudos de endometriose peritoneal são então, erroneamente, extrapoladas para as outras formas da doença, que são diferentes.
Prova que são diferentes é que, mesmo com modernas ferramentas e pesquisadores capacitados, não é possível desenvolver experimentalmente a endometriose ovariana ou a profunda. Jamais conseguimos produzir endometriose ovariana ou profunda em laboratório. De maneira simplificada, tente injetar sangue menstrual no intestino ou em um ovário de um camundongo e observe se haverá formação de endometriose. Não, esse não é um evento biológico que acontece.
Décadas atrás tentou-se injetar sangue de puérperas (mulheres com parto recente) em suas próprias paredes abdominais para testarem a possibilidade de se formar o endometrioma de parede (uma forma de endometriose profunda). Pasmem, essa foi uma pesquisa realizada em uma maternidade norte-americana na década de 1950, estudo que seria inaceitável nos dias de hoje. O que aconteceu? Nada. Não houve endometriose, pura e simplesmente. Felizmente também não houve maiores complicações com esse experimento absurdo.
Assim, conseguimos reproduzir em laboratório apenas a endometriose peritoneal. Mas, deduz-se erradamente que todas as formas da doença sejam iguais e que sejam causadas pela menstruação. A extrapolação equivocada das conclusões dessas pesquisas colabora para a perpetuação da mentira da teoria da menstruação retrógrada.
6 - A mídia propaga a teoria da menstruação retrógrada: médicos capacitados (e que por cima ainda são excelentes comunicadores) revezam-se diariamente na mídia escrita e televisiva (programas matinais, etc.) para falarem sobre saúde. E quando o assunto é endometriose, um dos primeiros tópicos abordados é a teoria da menstruação retrógrada. Aqui, novamente, é uma mentira repetidas várias vezes tornando-se uma verdade.  Não porque sejam maus profissionais (pelo contrário, reitero que costumam ser os melhores), mas porque estão repetindo informações que lhes foram ensinadas nas faculdades, que lhes foram passadas pelos seus assessores, mas que não têm comprovação científica.
As consequências da propagação da teoria da menstruação retrógrada na mídia televisiva podem ser extremamente desastrosas. Falamos de milhões de mulheres que podem ter acesso a apenas essa fonte de informação, sem a possibilidade de consultas com especialistas ou acesso a outras fontes de informação.
7 - A indústria farmacêutica propaga a teoria da menstruação retrógrada: graças aos esforços e pesquisas da indústria farmacêutica, hoje podemos contar com medicações capazes de controlarem (em maior ou menor grau) a dor da endometriose, e de proporcionarem melhor qualidade de vida às mulheres. Isso é fantástico.
E para comercializar seus produtos, a indústria vale-se do marketing.  Isso é natural em qualquer negócio. Entretanto, no caso da endometriose, esse marketing pode ser agressivo, e levar a conclusões equivocadas.
Pensem comigo: se a infecção é causada por uma bactéria, e eu comercializo um antibiótico, nada mais natural do que eu fazer marketing demonstrando qual é essa bactéria e os malefícios que ela pode causar, pois eu comercializo justamente o antibiótico capaz de matar aquela bactéria.
Ora, se eu comercializo uma medicação capaz de suspender a menstruação e controlar a dor da endometriose, eu buscarei divulgar que a endometriose é causada pela menstruação, pois eu comercializo justamente a medicação capaz de suspender a menstruação! Não haveria nada de mal nisso, fosse a endometriose causada pela menstruação. Mas não o é. Não há provas que a menstruação retrógrada cause endometriose. Então, como propagandear um fato que não tem comprovação científica? A bula de uma conhecida pílula lançada no mercado há alguns anos começa com a seguinte frase “a endometriose é causada pela menstruação...”. É a primeira frase da bula. O marketing que nós médicos recebemos dos laboratórios é essencialmente direcionado à teoria da menstruação retrógrada. Isso não causaria maiores problemas, não fosse o fato de que alguns médicos têm como fonte de informação científica exclusiva aquela recebida dos laboratórios, por vezes enviesada.
imagem Clínica Pelvi 
Repito que a possibilidade de termos medicações capazes de controlar a dor da endometriose é algo fantástico. Mas devemos ser cautelosos com o tipo de marketing realizado. É como dizer que o cigarro te torna mais saudável, algo que também não tem comprovação científica.

8 - Futuros médicos são ensinados que a endometriose é causada pela menstruação retrógrada: como ex-professor de Ginecologia da Universidade de Brasília, pude contribuir e vivenciar o ensino aos futuros médicos. E como dizer algo diferente do que está nos livros-textos? Não é simples. Por vezes você certamente pode ser interpretado como “maluco”! Mas fato é que os livros continuam a trazer a teoria da menstruação retrógrada como a principal explicação para a endometriose, por motivos que já destaquei, dentre os quais o principal é a extrapolação de conclusões de pesquisas com endometriose peritoneal.
E, se futuros médicos são ensinados assim, é possível que a teoria da menstruação retrógrada ainda se perpetue por um longo tempo. É necessário que se quebre o ciclo de propagação de informações sem comprovação científica, por mais desafiador que se possa parecer.
9 - A endometriose é visualmente identificada (ou não) de diferentes maneiras por diferentes médicos: como falar de uma doença que pode ser “enxergada” (ou não) de diferentes maneiras por diferentes médicos? Dez diferentes médicos não teriam dificuldade em identificar e retirar um bebê durante uma cesárea. Mas dez diferentes médicos poderiam identificar as lesões de endometriose de dez formas diferentes durante as cirurgias ou simplesmente não identificá-las. Esse é um dos grandes desafios da endometriose.
 Para exemplificar, sugiro às mulheres que passaram por laparoscopia a mostrarem as imagens de suas cirurgias para diferentes médicos. Pasmem, vocês certamente ouvirão diferentes opiniões. Ouvirá relatos como “não há nada, está tudo normal”, ou “são apenas aderências”, ou “há pequenas lesões de endometriose, sem maior gravidade”, ou então “há várias e graves lesões de endometriose, como posso ver aqui, aqui e aqui...”. Ressalto, diferentes médicos vendo as mesmas imagens. E porque isso acontece? Não necessariamente há “maus e bons médicos”, mas sim diferentes experiências.
 Novamente, nos remetemos à formação médica nas universidades, aos nossos livros-texto e professores, e o que eles nos mostram como sendo lesões de endometriose. Meu cérebro só será capaz de identificar uma lesão de endometriose se eu tiver visto antes uma lesão de endometriose, se alguém tiver me falado que aquela lesão é endometriose, se eu acreditar que realmente possa ser endometriose e removê-la em sua totalidade e se a biópsia confirmar que aquela lesão é endometriose. Se nunca me mostraram (ou se eu não tive o interesse de aprender) como é uma lesão de endometriose intestinal, ou uma lesão profunda retroperitonial “escondida” atrás das “aderências”, então eu jamais serei capaz de identificar o que é endometriose.
O mesmo raciocínio vale para os exames de imagem (ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e/ou ressonância magnética pélvica), onde apenas alguns profissionais serão capazes de “enxergar” onde está a endometriose profunda.
 Pois então, se eu não consigo identificar visualmente a doença, como entender sua evolução e história natural? Parece mais óbvio então eu concluir que, quando eu identificar as lesões, ela foram causadas pelas últimas menstruações, ao invés de concluir que ela já poderia estar presente há muito mais tempo, só que não era identificada.
 Não enxergar a endometriose significa não tratar a endometriose. Não enxergar a endometriose significa perpetuar a noção de que ela seja causada por menstruação retrógrada.
 10 - A teoria da menstruação retrógrada justifica todas as falhas terapêuticas: e por último, o mais importante, conforme destacado no texto referência do Dr. David Redwine. Dizermos que a menstruação causa endometriose justificará, automaticamente, a persistência da endometriose após qualquer tipo de tratamento realizado, seja com uma pílula ou uma fertilização para engravidar ou uma cirurgia. A teoria da menstruação retrógrada justifica as múltiplas cirurgias que algumas (não raras) portadoras de endometriose sofrem ao longo de sua vida. A mulher estaria fadada a conviver para sempre com uma doença crônica, sem cura, até o momento de sua menopausa, pois ela sempre vai menstruar e a endometriose sempre voltará. Seria muito melhor se, ao invés de justificarmos as falhas terapêuticas, encontrássemos maneiras eficazes de tratar a doença.
Conclusão:
Vários fatores contribuem para a perpetuação da teoria da menstruação retrógrada como causa da endometriose, proposta por Sampson em 1921. Fatos seculares (o útero como causa das doenças femininas) e modernos (propagação pela mídia televisiva), associados à dificuldade de identificação da endometriose nos exames e mesmo durante as cirurgias, são responsáveis pela infeliz perpetuação dessa teoria.
A discussão da origem da endometriose é de extrema importância, até mesmo mais importante que a discussão de tratamento clínico ou cirúrgico da doença. Entendida a doença, entendidas serão as maneiras de tratá-la. Os progressos serão então concretos, e milhões de mulheres ao redor do mundo terão a chance de viverem livres da doença. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

BOA VISTA, EM RORAIMA, ESTREIA NA ENDOMARCHA 2017 APÓS SANCIONAR A PRIMEIRA LEI ESTADUAL DO BRASIL!!

Logo oficial da EndoMarcha 2017! 

A cidade de Boa Vista, capital de Roraima, estará presEnte na EndoMarcha 2017. Às 23h59 desta segunda, dia 5 de dezembro, se encerra as inscrições das cidades/ dos estados para participar da caminhada de conscientização da endometriose. A 4ª edição da Marcha Mundial pela Conscientização da Endometriose acontecerá no próximo dia 25 de março em 13 cidades brasileiras, de 12 diferentes estados. São elas: São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Curitiba, Londrina, Maringá (PR), Campo Grande (MS), Salvador (BA) e Fortaleza (PE). 

No último mês foi sancionada em Roraima a primeira lei estadual de endometriose do Brasil. Pois é um estado que, infelizmente, nem tratamento público tem, mal tem particular, e já tem lei, idealizada pela deputada Lenir Rodrigues. Vou fazer uma entrevista com ela e contaremos os detalhes deste mais novo engajamento do A Endometriose e Eu. Uma das nossas missões, além de passar a correta informação sobre a doença, é criar políticas públicas para as cerca de 10 milhões de endomulheres brasileiras. Para isso é necessário leis. Já conseguimos uma municipal em Campo Grande, no MS, a primeira do Brasil, que inspirou a de Mogi das Cruzes, em SP, e agora mais este feito inédito. Em breve todos os detalhes. 

Para conseguirmos mais precisamos nos unir. Este é o "nosso" momento, momneto de unir nossas forças, de unir nossas vozes num só coro, em prol de nós mesmas, de nossas filhas, de nossas netas... A menina que tem parente de primeiro grau com endometriose tem sete vezes mais chances de desenvolver a doença que àquelas que não têm. Não adianta reclamar sem ação. Este é o nosso momento. Afinal, a marcha é para nós, portadoras, lutar pelos nossos direitos e também para conscientizar a sociedade sobre seus sintomas, pois só assim há de ter o diagnóstico precoce. Não adianta se fechar em grupos e ficar em casa reclamando. Precisamos agir, de sair do mundo virtual e para o real, sair às ruas e mostrar nossa "cara". 

No dia 25 de março junte-se a nós na EndoMarcha 2017. Ou você vai querer continuar invisível para a sociedade? Pense nisso e venha marchar conosco! Se você ainda não se inscreveué rápido e gratuitoclique aqui e ajude a salvar milhões de vidas que estão caladas e sofrendo com a endometriose. Você sabe para que serve o cadastro? Leia aqui. Chega de silêncio!  Se você quer encabeçar a EndoMarcha 2017 em sua cidade ou deseja patrocinar a marcha em alguma cidade envie email para endomarch.brazil@gmail.com A união faz a força e juntas somos mais fortes! Beijo carinhoso!! A capitã, Caroline Salazar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A HISTÓRIA DA LEITORA FERNANDA SILVEIRA ODORIZZI, SUA ENDOMETRIOSE PROFUNDA E SEU TÃO SONHADO POSITIVO!!

Fernanda Silveira Odorizzi de Oliveira passou em diversos médicos, escutou que
suas dores eram normais, acbaou perdendo um ovário e após quatro cirurgias conseguiu seu tão sonhado positivo
- Fotos: Divulgação

Em cada relato que recebo percebo o quanto a endometriose é cruel e que realmente a doença não tem idade para acometer a mulher.  Após contar a história da adolescente Clara Flaviane, basta ler o segundo parágrafo do testemunho da paulista Fernanda Silviera Odorizzi de Oliveira para termos a certeza que a doença não atinge apenas mulheres em idade reprodutiva, como a maioria dos médicos diz, para não dizer quase todos. Fernanda tem cólicas fortes desde sua menarca, aos 11 anos. Aos 11 anos ainda somos meninas, algumas mais crianças que outras, outras já na pré-adolescência, e a doença maltrata tanto como uma mulher adulta. O pior é a mulher sentir dor, saber que tem algo errado com ela e o médico achar normal a cólica forte, as dores durante a menstruação e mais absurdo ainda é a mulher sofrer assédio moral por parte do chefe pelo fato dela ter de ir ao hospital para tentar conter as dores. Pior ainda é seu superior ser uma mulher e te dizer que você pode ser demitida por conta das faltas. Só quem sofre com as dores fortes da endometriose sabe como é não conseguir levantar da cama e ter uma vida normal. Isso acaba com a gente. 

Infelizmente a falta de informação e o preconceito ainda imperam quando o assunto é endometriose. Como sabem eu não só sofri preconceito, como fui demitida do meu trabalho por conta do meu tratamento. Um grande absurdo isso acontecer em pleno século XXI. Realmente precisamos nos unir para mudar esta triste realidade a qual convivemos diariamente no Brasil e a EndoMarcha é um meio para isso. No dia 25 de março de 2017 junte-se a nós, acesse a coluna da EndoMarcha e faça seu cadastro.  Ainda bem que Fernanda encontrou, após anos de sofrimento, uma médica humana, competente e que ajudou a realizar seu grande sonho. Mais uma história com final feliz que vai levar muita fé, esperança e perseverança às endomulheres, especialmente, àquelas que lutam contra a infertilidade. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

“Meu nome é Fernanda Silveira Odorizzi de Oliveira, sou de Osasco, mas atualmente moro em Pedreira, interior de São Paulo onde tenho uma loja de artigos de decoração. Tenho 33 anos, sou casada há 13 anos com o Ranieri, um marido mega compreensivo.

Lembro-me como se fosse hoje quando tive minha primeira menstruação. Faltava um mês para eu completar 11 anos e quando vi aquela borra marrom, seguida de sangue e dores, pensei: “Não acredito que menstruar é isso?” E por incrível que pareça, nunca mais parei de sentir dores. Até o ponto de sair da escola gritando de cólicas, mal-estar e as únicas coisas que me receitavam eram Ponstan e Vioxx, que aliviavam por algumas horas, mas logo as dores retornavam ainda mais fortes.

A minha mãe me levava a vários ginecologistas e todos diziam a mesma coisa: quando casar sara ou ouvia que é normal ter cólicas. Normal porque não eram elas (es) que sentia as dores absurdas que sentia. Perdi a conta de quantos compromissos, festas, aulas que perdi por conta das dores.

Passaram-se os anos e eu sempre com as cólicas. Em 2003, aos 20 anos me casei, pois já namorava meu marido desde os 11 anos de idade. Na época meu ginecologista optou por cessar minha menstruação e me receitou o anticoncepcional Cerazette, mas a minha endometriose era tão chata que mesmo sem a menstruação eu ainda sentia cólicas. Fui levando nesse banho-maria até 2005 e de tanto insistir, pois eu sempre pesquisava o assunto e trocava informações com outras pessoas, meu médico me encaminhou para um cirurgião gastro que fazia videolaparoscopia para ver se eu tinha a tal da endometriose ou não.

Lembro bem desse dia. Fui toda esperançosa e aflita para o Hospital Santa Catarina, na capital paulista, crendo que tudo seria resolvido. E para a minha surpresa o médico só encontrou um cisto grande no ovário, fez a cauterização e pronto. Mas eu ainda não entendia como isso? E quais eram as causas das dores? Por um momento achei que eu estava ficando louca, mas não desisti, até porque as cólicas seguidas de diarreia, náuseas e mal-estar persistiam.

Em 2006, como uma válvula de escape, meu novo médico (troquei de ginecologista), sugeriu que eu tentasse engravidar, pois as cólicas cessariam e tudo de ruim que estava em meu útero sairia no momento do parto. Ok, começamos a tentar e descobrimos que meu marido tinha varicoceles (varizes nos testículos). Ele precisou operar, pois as varizes esquentavam os testículos e matavam os espermatozoides. O urologista pediu repouso e disse que poderíamos voltar às tentativas dois meses depois, pois o que estava nas mãos dele foi feito e que deveríamos aguardar que Deus fizesse o melhor pra nós.

Foram mais alguns anos de tentativas, dores e assédio moral por parte do meu gerente, pois a cada menstruação, mesmo com dores, eu ia trabalhar, mas em seguida precisava ir ao hospital para tomar medicação venosa (era a única coisa que aliviava). Ele achava um absurdo que em pleno século XXI uma mulher se ausentasse do trabalho por conta de cólicas, pois a esposa e filha dele nunca tiveram cólicas menstruais. Chegou um ponto que a gerente superior a ele me chamou numa sala para "conversar", dizendo que se eu não parasse com as faltas, provavelmente eu seria demitida. Falavam como se eu pudesse controlasse as dores e ainda é um absurdo ter escutado isso de uma MULHER.

Em 2011 por uma série de fatores resolvemos mudar nossa vida. Sai do meu emprego de 10 anos (trabalhava em um banco em Osasco), mudamos para Pedreira, no interior, abri uma loja de artigos de decoração e iríamos seguir a vida, mas... a endometriose me acompanhava em qualquer lugar, ao ponto de eu precisar fechar a loja nos dias que eu estava menstruada de tanto que eu passava mal e chegava ao ponto de quase desmaiar por conta das dores.

Em 2012 me indicaram o doutor Edson da Fonseca, em Campinas, e só de ouvir meus relatos ele solicitou uma videolaparoscopia e o resultado eram aderências para todos os lados. Bom, sofri com o pós-operatório, pois não tinha minha família por perto, meu esposo trabalhava, dependia da ajuda de quem quisesse fazer uma caridade por mim, mas passei com a cabeça erguida.

Em 2014, já super habituada às dores e aos coquetéis de remédios que eu mesmo inventava (Toragesic, Profenid, Ibuprofeno, Dramim) para evitar ir ao hospital que é super precário, comecei a ter dores no lado direito da barriga e pensei que fosse o apêndice. Mas como não tinha febre, não me preocupei. Como a dor foi ficando intensa, resolvi procurar um especialista em endometriose em São Paulo. Passei no Hospital Nove de Julho com o doutor Ricardo Lourenço e, pela primeira vez, me pediram uma ressonância magnética da pelve e do abdômen, que por sinal tem um o preparo muito chato, pois foi necessário fazer a limpeza intestinal. Levei cerca de 1h e meia para fazer o exame. E no diagnostico: ovário direito com 30 % de aderências, útero com aderências. Minha única solução: enfrentar a terceira videolaparoscopia.

Fui operada no dia 30 de junho de 2015 e já fui preparada para perder um pedaço do meu ovário, mas quando acordei da anestesia, tive tantas dores que me aplicaram morfina. Quando cheguei ao quarto do hospital, pedi ao meu esposo para me levar ao banheiro, pois estava muito apertada. E ali mesmo, sentada no vaso sanitário, perguntei como tinha sido a cirurgia e ele me contou sobre a perda do meu ovário direito (que estava tomado de aderências). Ele me abraçou e choramos, e confesso que foi como uma punhalada, pois parecia que a cada vídeo, o nosso sonho de ter filhos se distanciava ainda mais. 

Voltamos para Pedreira e o doutor Ricardo me aconselhou que encontrasse um especialista, pois ele era cirurgião com especialização em endometriose, mas não era ginecologista para me indicar um tratamento. Cheguei a passar em dois ginecologistas em Jaguariuna, e um deles me receitou Allurene, pois era uma medicação nova e poderia me dar tréguas nas dores. E foi horrível minha experiência com esse remédio, pois meu cabelo caiu muito, meu humor se alternava em risos e choros no mesmo minuto, e as cólicas continuavam. Parei com o remédio e decidi que não ia mais tomá-lo, e então o medico orientou que eu tomasse Gestinol de uso contínuo. Usei um mês e detestei, pois era para ele parar com o sangramento, mas eu continuava menstruando e com cólicas, e se meu objetivo era ter um filho, eu não deveria usar anticoncepcional. E optei por continuar com a endometriose e tudo o que vem junto com ela.

Fernanda matando se desejo após 
sua quarta cirurgia.
A essa altura já era meados de novembro de 2015, e além das cólicas, voltei a ter dores na barriga. Então, mais uma vez, sai em busca de um especialista no site Doctoralia e lá encontrei a doutora Graciela Morgado e lá fui eu de novo com todos os exames para São Paulo. Levei tudo que eu tinha, inclusive, um ultrassom de preparo intestinal, dois exames de histerossalpingografia (radiografias das trompas e do útero), ressonância da pelve dentre outros.

No primeiro momento já amei o atendimento dela, pois ela realmente se importa com sua dor, acredita no seu sonho de ser mãe, é bem gabaritada no assunto endometriose, mas... meus exames apontavam para uma quarta videolaparoscopia, pois como haviam muitas aderências no fundo de saco de Douglas, bem perto do intestino, ela me orientou a passar com um cirurgião gastro da equipe dela, o doutor Victor Bruscagin, um médico maravilhoso, educadíssimo, que me explicou todos os detalhes da parte intestinal e também das hérnias. Eu estava com uma na virilha e outra no umbigo (essa decorrente das outras vídeos que fiz).

Marcamos a cirurgia para o dia 31 de março de 2016 no Hospital São Luiz, na capital, e fiz todo o preparo intestinal, pois já sabia que seria retirada uma parte dele. Confesso que nas outras videos não tive tanto medo e receio quanto dessa vez, porque só o fato de pensar que ficaria hospitalizada cinco dias e faltando um pedaço do intestino, nossa eu começava a ter calafrios. Mas se era preciso, eu iria encarar mais essa como sempre fiz.

Fui para o centro cirúrgico e minha operação demorou 2h30, mas ao voltar para o quarto, meu marido me deu a ótima notícia que meu intestino estava intacto e que a endometriose era profunda, localizada na bexiga, no útero, no ovário esquerdo, no fundo de saco de Douglas. foram retiradas as hérnias e no dia seguinte a doutora Graciela passaria para me dar a alta. Foi um alívio. E quando eu estava voltando da anestesia, a doutora perguntou se eu estava com fome e o que eu gostaria de comer, respondi um lanche do Burguer King, e não é que meu pedido foi atendido? Na hora da visita meu pai foi autorizado a levar o lanche, a batata e o suco ao hospital!

Depois da cirurgia fiz tratamento com injeções de Lupron Depot 3,75 mg e a doutora Graciela passou a me acompanhar mês a mês nessa jornada da endometriose e na nossa saga de ter um filho, pois além de tudo, ela também é especialista em reprodução humana. Confesso que ela foi um anjo em nossas vidas e agradecemos a Deus por tê-la colocado em meu caminho. Ela transmite tanta segurança e confiança, que parece que é da nossa família.

Fernanda e seu marido, Ranieri, felizes da vida 
à espera de Olívia, após nove anos de tentativas.
Quero também registrar que em todos os momentos, em cada dor, em cada lágrima, meu querido Ranieri esteve comigo, dando apoio, me encorajando nas cirurgias, me ajudando a tomar banho, aprendendo a fazer sopinhas, purês, aprendendo a lavar roupas, (porque a endometriose te impede de fazer até as tarefas mais simples do dia-a-dia). Mas principalmente por ter a certeza que ele me amou e me ama como se fosse a primeira vez, independente do quão cruel e dura é a endometriose.

Depois de nove anos tentando engravidar, estamos em estado de graça. Pela graça de Deus estou grávida e consegui realizar este grande sonho. Depois de duas fertilizações in vitro com a doutora Graciela tivemos conseguimos o nosso tão sonhado BetaHcg positivo!! A emoção foi tão grande que não conseguíamos nos conter e assim que passaram os de dois meses de repouso (tive bastante hemorragia), realizei o exame de sangue de sexagem fetal e agora já sabemos que a Olívia está a caminho!

Apesar de tudo que passei esse ano podemos dizer que tivemos a melhor notícia do mundo e em 2017 nossa filha que foi tão desejada estará em nossos braços! Estou de 16 semanas e o parto está previsto para 20 de maio de 2017. Realmente temos que confiar em Deus, pois no momento certo tudo se resolve! Quero dizer a todas (os) que lerem minha história que não desistam dos seus sonhos, principalmente, quando tudo desmoronar em nossas cabeças e que esse sonho parecer distante, mantenha a fé e corra atrás daquilo que você sente. Pois se eu não tivesse ido atrás daquilo que meu corpo falava comigo (minhas dores) eu não estaria presenciando este milagre. Um beijo carinhoso, Fernanda”. 

domingo, 27 de novembro de 2016

"COM A PALAVRA, O ESPECIALISTA" DOUTOR HÉLIO SATO!


Depois de falar o que é a endometriose como deve ser feito o diagnóstico da doença, no terceiro vídeo da série sobre endometriose o doutor Hélio Sato aborda o impacto da doença na qualidade de vida de uma mulher tanto na área pessoal, abordando a dispareunia, quanto na familiar, no trabalho e nos estudos. Já falamos aqui no A Endometriose e Eu que segundo estudo americano a dor durante e após as relações sexuais afeta cerca de 50% das portadoras. Depois da atividade sexual vem a vida familiar com 36% e em seguida com 35 e 32%, respectivamente, estão o desempenho escolar e a falta no trabalho. Aperte o play! Beijo carinhoso! Caroline Salazar

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

PUBLIEDITORIAL: VOCÊ SABIA QUE A ENDOMETRIOSE PODE SER FACILMENTE CONFUNDIDA COM OUTRAS DOENÇAS?


Recadinho da Laura para você! 


Por Caroline Salazar

Apesar de ser a doença ginecológica com mais artigos científicos publicados nos últimos 20 anos, a endometriose ainda é uma doença complexa e com atraso no diagnóstico, pois muitos dos seus sintomas são confundidos com os de outras doenças. De acordo com estudos, cerca de 50% das mulheres diagnosticadas com a Síndrome do Cólon Irritável tinham endometriose. A média mundial para diagnóstico da doença é de sete a 12 anos.

O conhecimento antiquado e também a falta dele sobre novas pesquisas por parte dos médicos também torna o diagnóstico tardio. A maioria das mulheres precisa ir a muitos, mas muitos médicos para receberem o diagnóstico. Cerca de 26% das mulheres foram encaminhadas para outros especialistas antes de ser vista pelo seu ginecologista atual. Um número alto se tratando de uma doença que interfere na qualidade de vida impactando nos principais anos de vida da mulher.

Por isso ser acompanhada por aquele especialista que realmente entende da doença e que trata a mulher como um todo faz toda diferença no correto tratamento para que a endomulher volte a ter sua qualidade de vida. Atualmente há no mercado drogas modernas desenvolvidas especialmente para tratar a endometriose. Dentre as disponíveis está o Alurax – dienogeste 2mg -, que controla melhor a doença para aquelas que não há urgência em fazer a cirurgia. 

O Alurax contém 30 comprimidos e é fabricado pela Momenta Farmacêutica. Uma das missões da Momenta é justamente "promover o acesso à saúde e à qualidade de vida com tratamentos a preço justo”. Com cerca de três anos de atuação, a Momenta tem qualidade garantida e já é reconhecida pela comunidade médica, pelos farmacêuticos e pelos farmacistas. Converse com seu especialista em endometriose a respeito do Alurax. Vale lembrar que todo medicamento deve ser prescrito pelo seu especialista. Não tome nenhum remédio sem o consentimento de seu médico. 

Algumas redes de drogarias estão vendendo pela internet o Alurax muito mais em conta que nas farmácias físicas – cerca de 20% mais barato que o preço original -, como é o caso da Drogaria São Paulo e Drogasil. Se você tiver dificuldade de encontrar o Alurax em sua cidade, vou deixar o telefone do SAC para você saber quando ele estará disponível na farmácia mais próxima de sua casa: 0800 703 1550 ou se preferir envie email para central@momentafarma.com.br. 



terça-feira, 22 de novembro de 2016

"A VIDA DE UM ENDOMARIDO": COMO CONSEGUIMOS NA JUSTIÇA QUE NOSSO CONVÊNIO ARCASSE COM NOSSA FIV?

Faby e Igor Cayres com os gêmeos Mariana e Gabriel - Foto: divulgação

Em "A Vida de um EndoMarido", pela segunda vez como endomarido convidado, o produtor cultural Igor Cayres, conhecido no instagram como @papaipig, conta em detalhes como ele e sua esposa, a Faby, conseguiram por meio da justiça que seu convênio médico arcasse com todos os custos da fertilização in vitro, medicações para realizar tal procedimento, consultas de pré-natal e parto. Detalhe: com o médico a escolha do casal. Como esse tipo de processo ainda é novo e o deles é um dos primeiros tenho certeza que este texto vai levar ainda mais fé e esperança a muitas endomulheres. Quando vejo um caso de sucesso como o de Igor dá para acreditar que a justiça brasileira ainda está a favor do povo. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por Igor Cayres
Edição: Caroline Salazar

A convite do blog A Endometriose e Eu, mas sobretudo para que a minha experiência seja útil aquelas, e por que não dizer também “aqueles”, que sonham em formar uma família, ter filhos, mas encontram sérios obstáculos devido à endometriose e seus altos custos de tratamento, há uma luz no fim do túnel, e ela se chama “Justiça”.

Já descrevi aqui como descobri ser um endomarido, hoje descreverei em detalhes como obtivemos êxito no quesito financiamento de nossa fertilização in vitro  por meio de ação judicial.

A endometriose tem quatro estágios e, dependendo do estágio da doença na mulher, a gravidez só é possível via fertilização in vitro. Dessa forma, o primeiro passo para se iniciar um processo desse tipo é ter o diagnóstico preciso de um profissional de saúde especializado. Ele te entregará um relatório médico, que deverá constar o procedimento clínico a ser adotado para o referido caso. Dotado desse documento - exames de imagem também são úteis -, a petição inicial deve  ser redigida por um advogado.

E foi isso que fizemos, mas no decorrer do processo, e de muitas formas a operadora tentou “nublar” o entendimento do juízo.

A ré (operadora) apresentou contestação, alegando, em síntese, que o contrato firmado entre as partes não prevê cobertura para o tratamento de FERTILIZAÇÃO IN VITRO, por ausência de previsão no Rol de Procedimentos Obrigatórios da Agência Nacional de Saúde (ANS). Disseram também que haveria abalo econômico caso autorizasse tais procedimentos, vez que a contraprestação deve estar de acordo com a mensalidade da Requerente (minha esposa).

Mas cabe salientar, e há de se dizer que o rol da ANS não é taxativo (exclusivo). Este – pela própria essência do contrato de planos de saúde – somente pode ser exemplificativo.

A operadora ainda alegou que se tratava apenas de procedimento de inseminação artificial com a finalidade da requerida (a Faby) de ser mãe, tentando descontextualizar a sua patologia, e o ÚNICO tratamento viável para conter a gravíssima doença que a acometia, a endometriose SEVERA!

Diante dos argumentos da ré, nosso pedido foi NEGADO em primeira instância, mas decidimos recorrer aos desembargadores já que tal postura mostrava-se ao nosso entendimento abusivo, diante do entendimento sedimentado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, conforme trecho de decisão “Havendo expressa indicação médica, é abusiva a negativa de cobertura de custeio de tratamento sob o argumento da sua natureza experimental ou por não estar previsto no rol de procedimentos da ANS.”

Nem tudo na vida e na justiça é “preto no branco”, como dizia meu saudoso avô, e o cerne da questão no nosso processo é a valorização da vida humana por meio da função social do contrato firmado com a operadora de saúde.

Vale salientar que um contrato de planos de assistência à saúde é um contrato aleatório, ou seja, é um contrato causal, em que a contraprestação somente se efetivará em caso de eventual fato ou ato que abale a saúde do contratante, que pode até passar uma vida inteira sem necessitar receber quaisquer cuidados para o restabelecimento de sua saúde, sem que o contrato esteja prejudicado.

O fato é que a endometriose não tem cura, mas com o devido tratamento pode-se alcançar bons resultados. As pacientes que sofrerem de endometriose podem se beneficiar da fertilização in vitro para conter a progressão da doença e evitar a amputação precoce de órgãos vitais como: rins, bexiga, intestino e aparelho reprodutor e melhorar assim a qualidade de vida. Portanto, a jurisprudência atual (entendimentos dos juízes) é que o tratamento prescrito pelo médico é o que deve prevalecer, ou seja, a escolha da melhor opção de tratamento a ser destinado ao paciente compete única e exclusivamente à equipe médica, conforme já pautado pelo Poder Judiciário em outras ações de cunho de saúde, e se faz absolutamente necessário por tempo indeterminado.

Dessa forma, com esses argumentos, recorremos da decisão emitida pelo Juízo de piso (1ª instância). Meses se passaram até que o nosso recursos fosse julgado e, para nossa felicidade, e para celebrar a vida, obtivemos ganho de causa por unanimidade dos juízes de 2ª instância, ou seja, nosso pedido de liminar (decisão que analisa um pedido urgente) foi aceito,  e nossa operadora de saúde custeou todo o tratamento prescrito pelo nosso médico, em estrito cumprimento ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Fizemos tudo mediante liminar, e apenas uns meses atrás, cerca de um ano e meio após o nascimento dos geminhos, foi que saiu a decisão final a nosso favor.

E para termos êxito em nosso tratamento foram necessárias quatro fertilizações in vitro, como já contamos aqui no blog a história da Faby. A primeira foi custeada por nós, as outras três pela operadora de saúde via liminar judicial. Na primeira FIV o embrião não se desenvolveu em laboratório, e as outras duas foram marcadas por dois abortos. Somente na quarta tentativa que conseguimos ter uma gravidez a termo, gemelar, e de um casal. Hoje temos a Mariana e o Gabriel em casa, bebês lindos e saudáveis!

Se puder dar uma dica para o processo judicial escolham um advogado especializado na área de saúde, o caminho será menos doloroso e fluido. Abraço e boa sorte!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

DAVID REDWINE: SAMPSON ESTAVA ERRADO? PARTE 2

Uma das múltiplas ilustrações de endometriose presentes em artigo [1] publicado por Sampson. Ele levava seu desenhista particular para as cirurgias. Fica claro por essa ilustração seu maior destaque à doença nos ovários (ovário esquerdo com volumoso endometrioma). [1] Sampson JA. Perforating hemorrhagic (chocolate) cysts of the ovary. Their importance and especially their relation to pelvic adenomas of endometrial type (“adenomyoma” of the uterus, rectovaginal septum, sigmoid, etc.). Arch Surg 1921;3:245–323.

Na segunda parte do texto "Sampson estava errado?" (leia a parte 1 aqui), o doutor Redwine continua sua contestação sobre a teoria da menstruação retrógrada e explica o motivo que a endometriose não pode ser considerada uma doença autoimune. No texto o cientista americano aborda a teoria da metaplasia celômica como a que mais explica a forma como a doença se origina, teoria que explica também a doença em homens - leia aqui texto endometriose em homens (texto 1 e texto 2) e as formas raras da doença -, em crianças (leia os textos sobre endometriose em fetos (texto 1 e texto 2) e até mesmo em locais distantes da pelve, como pulmões diafragma e etc. Vale muito a pena você ler a nota do tradutor escrita pelo doutor Alysson Zanatta, onde ele explica de uma maneira simples e didática o que o doutor Redwine disse no texto. Mais um texto exclusivo do blog A Endometriose e Eu que vai te fazer pensar e repensar sobre a real origem da endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por doutor David Redwine
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Erros contínuos de interpretação:

Ainda é possível lermos que os ovários são os locais mais comuns da doença. Esse conceito estava sendo desacreditado pelo próprio Sampson e por suas evidências em 1927, e hoje não tem nenhum lugar na discussão moderna sobre endometriose. Estudos recentes sobre a endometriose em todas as suas formas morfológicas indicam claramente que o fundo de saco é o local mais comum de acometimento pélvico [15]. Mesmo se a frequência de acometimento do ovário direito for acrescentada àquela do ovário esquerdo e tomada como uma área única total, a frequência de acometimento ovariano ainda é inferior àquelas do fundo de saco, ligamento largo esquerdo, ligamento útero-sacro esquerdo, ligamento largo direito, e ligamento útero-sacro direito.

Uma das consequências previstas pela teoria de Sampson é que mais áreas pélvicas deveriam ser acometidas pela endometriose com o passar do tempo. Se houvesse semeadura mensal de endométrio, a pelve se encheria de endometriose da mesma forma que um pasto se encheria de ervas-daninhas. Mulheres mais velhas deveriam ter mais doença que mulheres mais novas, e a maioria das pacientes não tratadas deveriam desenvolver doença mais severa ao longo do tempo. Tal característica progressiva e de disseminação é largamente acreditada entre os médicos. Mas qual a evidência de que isso realmente ocorra? De fato, nenhuma até o momento. Mulheres mais velhas não têm mais doença que mulheres mais jovens, independente se a doença é medida pelo número de locais acometidos [16], pela classificação revisada da American Fertility Society (AFS) [17], ou em centímetros quadrados de peritônio acometido pela doença. A maioria das pacientes não tratadas não apresenta progressão da doença entre as cirurgias [19, 20, 21, 22].

Outra das consequências previstas pela teoria de Sampson é que seria impossível curar a endometriose, já que haveria nova semeadura na pelve por menstruação retrógrada mensal. Atualmente, sabe-se por mais de meio século que a endometriose pode ser curada por cirurgia conservadora (nota do tradutor: SEM a realização de histerectomia e/ou ooforectomia, retirada do útero e dos ovários, respectivamnete) [23] e que as taxas de recorrência após cirurgia conservadora são extremamente baixas [24, 25, 26, 26, 28, 29, 30, 31]. E que estudos modernos confirmam taxas de cura superiores a 50% após uma cirurgia conservadora por laparoscopia [32] ou laparotomia [33] em casos “resistentes” ou difíceis.

A misteriosa circulação na cavidade peritoneal:

Uma mutação particularmente aberrante da teoria de Sampson tenta explicar um pequeno aumento na frequência de acometimento no lado esquerdo da pelve. Supõe-se que exista uma circulação intraperitoneal de líquidos do quadrante superior esquerdo em direção ao fundo de saco, então ascendendo ao quadrante superior direito. Assim, um redemoinho dessa circulação causado pelo efeito mecânico protetor das aderências fisiológicas do retossigmoide ao bordo pélvico superior esquerdo predisporia à deposição de células regurgitadas no lado esquerdo da pelve, que é mais protegido pelo sigmoide. A “prova” da existência de tal circulação é duvidosa. Em um estudo com natimortos, criou-se perfurações nos intestinos e injetou-se bário continuamente por 3 horas fazendo-se radiografias para acompanhar o fluxo do bário [34]. Dependendo de onde havia sido criada a perfuração, o bário poderia literalmente dispersar-se em qualquer direção. Em uma natimorta, fez-se uma perfuração no útero e foi injetado bário com uma pressão de 100 mmHg, observando-se que seguiu para o quadrante superior direito! Em outro estudo [35], passaram-se cateteres através da margem costal direita de macacos e os avançaram até a fossa ilíaca direita. Colocou-se outro cateter no quadrante superior esquerdo da cavidade peritoneal, sem avançá-los. Injetou-se albumina radioativa pelo segundo cateter e observou-se que essa seguia o trajeto do primeiro cateter, o que seria esperado. É espantoso que tais evidências sejam utilizadas para justificarem a teoria da menstruação retrógrada.

O braço imune da teoria de Sampson:

Uma pergunta persistente relacionada à teoria da menstruação retrógrada é porque nem todas as mulheres desenvolvem endometriose. Sabe-se que entre 80% [36] e 90% das mulheres com trompas uterinas pérvias têm menstruação retrógrada, enquanto apenas 15% das mulheres com trompas bloqueadas têm fluido peritoneal sanguinolento durante as menstruações [37]. Isso sugere que a frequência de sangue na cavidade peritoneal devido à menstruação retrógrada seja de aproximadamente 75- 80%, ao invés de 100% como comumente sugerido. Em qualquer das situações, parece seguro afirmar que a maioria das mulheres tem menstruação retrógrada, mas não desenvolvem endometriose. Enquanto uma conclusão rápida e óbvia seria afirmarmos que a menstruação retrógrada não tem nada a ver com a endometriose, os defensores da teoria de Sampson criaram uma nova mutação para explicar o fato com base em uma teoria imune.

O braço imune da teoria de Sampson afirma que mulheres com endometriose possuem um sistema imune defeituoso, incapaz de identificar e destruir células endometriais refluídas, e que então essas células poderiam se aderir à superfície peritoneal, proliferarem e invadirem para se transformarem na doença conhecida como endometriose. Em mulheres com sistemas imunes normais, as células refluídas são supostamente atacadas e digeridas antes que possa haver a adesão peritoneal. Como uma das funções do sistema imune é identificar “o não-próprio”, uma objeção imediata à essa teoria é que não se esperaria que o sistema imune atacasse células endometriais refluídas em um primeiro momento, pois elas são células “próprias”.

Se todas as mulheres destinadas a terem endometriose tivessem sistemas imunes defeituosos, então deveria haver um número extraordinariamente alto de doenças autoimunes, cânceres, e infecções oportunistas em quase 100% das mulheres com endometriose. Entretanto, um grande estudo baseado em questionários de mulheres com endometriose cirurgicamente comprovadas demonstrou que a maioria das mulheres com endometriose não tem doenças endocrinológicas, doenças inflamatórias autoimunes, ou dor crônica e fadiga, sendo a prevalência dessas condições entre 0,5% e 9,6% [38]. Apesar disso, as prevalências foram aumentadas cerca de 0,9 a 180,5 vezes em relação a controles populacionais históricos [38]. Um estudo populacional na Suécia mostrou um pequeno aumento de cânceres ovariano, mamário e hematológico entre pacientes com endometriose, mas ficou claro que a maioria das mulheres com endometriose não desenvolve câncer [39].  Além disso, ninguém documentou um aumento do número de infecções oportunistas em mulheres com endometriose. Outro problema com essa teoria é que ninguém demonstrou evidências dessa guerra imunológica que supostamente ocorreria na pelve de mulheres com sistema imune normal e que não desenvolvem endometriose. Em teoria, deveria haver provas fáceis de fotografias microscópicas demonstrando a destruição de endométrio refluído pelos macrófagos, já que isso deveria estar ocorrendo bilhões de vezes.

Uma menor atividade das células natural killer (NK) é identificada contra o endométrio autólogo, devido tanto a um defeito na atividade das células NK como à resistência do endométrio à atividade da célula NK [40], e esse defeito torna-se mais pronunciado com o aumento da gravidade da doença [41]. Esse defeito persiste após a remoção da endometriose, indicando que aparentemente não seja causado pela endometriose em si, mas por algum defeito de outra origem [42]. O defeito das células NK pode ser secundário a um efeito desconhecido dos endometriomas ovarianos sobre o útero, já que a remoção dos ovários causa uma melhora na atividade das células NK [43]. Portanto, as evidências sugerem que a atividade das células NK não está relacionada diretamente à endometriose, e parece improvável que esteja relacionada à sua causa da maneira como é postulada.

O sistema imune pode ser ativado em pacientes com endometriose, com uma maior atividade de macrófagos no próprio líquido peritoneal [44] assim como na lesão de endometriose [45].

É claro que a maioria das mulheres com endometriose não tem problemas no sistema imunológico, mas que seus sistemas imunológicos são dinâmicos e ativos, produzindo uma resposta inflamatória apropriada aos efeitos da doença. Algumas, mas não todas, podem ter alterações imunológicas, mas seria incorreto concluir que essas alterações teriam qualquer coisa a ver com a facilitação da adesão de células endometriais refluídas.

Onde está a evidência?

Eu e o doutor David Redwine, em 2014, quando ele esteve no Brasil.

Apesar de quase 100 anos de pesquisas, a teoria de Sampson permanece suportada apenas por evidências circunstanciais. A maneira mais simples de se provar a teoria de Sampson seria obter fotografias microscópicas dos passos que estão faltando: (1) adesão inicial de fragmentos de endométrio às superfícies peritoneais. (2) Proliferação secundária e invasão das células aderidas. Essas duas etapas ocorreriam aos bilhões ao longo de qualquer ano, então seria simples fotografar uma ou ambas as etapas, e nossos livros estariam cheios de claras evidências fotográficas de centenas de milhares de exemplos de adesão celular inicial. Apesar da facilidade de tal comprovação, tais fotografias microscópicas não existem como prova. Pesquisadores que avaliam o conceito de endometriose microscópica não encontraram evidências de adesão celular em centenas de biópsias de peritônio normal em pacientes com endometriose [46, 47, 48, 49, 50, 51].

... apesar de quase 100 anos de pesquisas, a teoria de Sampson permanece suportada apenas por evidências circunstanciais...

Os perigos da teoria de Sampson

Enquanto seja difícil dizer qualquer coisa de positivo sobre a teoria da menstruação retrógrada como a origem da endometriose, a história piora. A teoria de Sampson da menstruação retrógrada impede progressos na pesquisa e no tratamento da endometriose. Como todas as falhas de tratamento podem ser explicadas por essa teoria, o médico não precisa se preocupar se o tratamento utilizado é eficaz, pois “todo mundo sabe que a doença volta devido à menstruação retrógrada”. Assim, os médicos podem orgulhosamente bater no peito e exultarem que a dor é reduzida durante a supressão ovariana, imaginando que a doença pode estar erradicada ou “secada”. Quando a dor volta após o término da supressão hormonal, pode ser dito à paciente que o motivo não foi a falha da medicação em erradicar a doença, mas porquê é da natureza da doença que ela recorra. Pensa-se que a endometriose seja uma doença crônica, incurável, enigmática, recorrente, com disseminação progressiva que pode ser tratada apenas com a remoção do útero, das trompas e dos ovários (os quais são infrequentemente acometidos pela doença). Parece que a visão pessimista é resultado de várias gerações de médicos que observaram os resultados ineficazes de tratamento clínico ou de cirurgias incompletas, culpando a teoria de Sampson como responsável pelas falhas de tratamento, e ignorando a possibilidade de cura pela completa remoção da doença do corpo.

... a teoria de Sampson da menstruação retrógrada impede progressos na pesquisa e tratamento da endometriose. Já que todas as falhas de tratamento podem ser explicadas por essa teoria, o médico não precisa se preocupar se o tratamento utilizado é eficaz, pois “todo mundo sabe que a doença volta devido à menstruação retrógrada”...

A teoria de Sampson prejudica as pesquisas sobre a endometriose porque muito dinheiro e muitas mentes são dedicadas a perseguirem essa teoria, e múltiplos esforços intelectuais não levaram a lugar algum. Seria muito mais barato e produtivo se os esforços fossem direcionados a obterem fotografias microscópicas da adesão celular inicial. Se a adesão celular não ocorre, então seria desnecessário desperdiçar mais tempo na teoria da menstruação retrógrada, e então poderia haver progressos reais.

... a teoria de Sampson prejudica as pesquisas sobre a endometriose porque muito dinheiro e muitas mentes são dedicadas a perseguirem essa teoria, e múltiplos esforços intelectuais não levaram a lugar algum...

O novo paradigma da endometriose: o que é antigo torna-se moderno novamente:

No vácuo criado pela aceitação da teoria da menstruação retrógrada para explicar a origem da endometriome, a metaplasia celômica, como defendida por Novak [11], Moench [52] e Gruenwald [53], alcança o topo da limitada lista de possíveis causas para doença, com certos insights e modificações: fatores poligênicos e/ou ambientais presentes no momento da concepção resultam na presença de um substrato mesenquimal responsivo ao estrogênio, semeado durante a embriogênese em tratos ou locais que seguem, mais ou menos, os caminhos da organogênese fetal pélvica, caudalmente ao longo do epitélio celômico posterior. A distribuição dos tratos pode variar de mulher para mulher, e o potencial biológico inerente destes também pode variar em diferentes locais na mesma pelve. Por exemplo, tratos distribuídos por estruturas parenquimais, como os ligamentos útero-sacros ou da camada muscular da bexiga ou do intestino, têm o potencial de sofrerem metaplasia muscular que não é vista na endometriose peritoneal ou ovariana. Substratos indiferenciados em garotas ou mulheres jovens não apresentam uma morfologia distinta que permitiria que fossem identificados durante a cirurgia. Durante a puberdade, o aumento da produção de estrogênio pelos ovários faz com que esses tratos indiferenciados passem por metaplasia em várias formas pré-ordenadas de endometriose ou endosalpingiose, com as muitas possíveis diferenças observadas do ponto de vista histológico, morfológico e funcional. Em um processo de metaplasia semelhante àquele da metaplasia escamosa do colo uterino, as mulheres terão desenvolvido essencialmente todas as lesões de endometriose de sua vida por volta dos 25 anos de idade. Aqueles locais destinados a passarem por hiperplasia fibromuscular ou alterações adenomióticas poderão continuar a fazê-los até a quarta década de vida. Esse modelo de metaplasia determinado embriologicamente, uma derivação do conceito de Mülleriose [13], prediz os resultados cirúrgicos observados após cirurgias conservadoras de ressecção de endometriose [32, 33]. Se durante a cirurgia, toda a endometriose e o tecido subjacente destinado a se tornar endometriose forem removidos, então a endometriose pode ser curada por uma única cirurgia. Se toda a endometriose é removida, mas não todo o tecido subjacente indiferenciado e sensível ao estrogênio, então é possível que haja a recorrência da doença. Entretanto, tal doença recorrente será quase sempre menor que a doença inicial [32], já que a maioria do tecido subjacente já terá se transformado em endometriose. Se o útero, as trompas e os ovários são removidos, mas a endometriose não é tratada, as pacientes terão risco de persistirem com sintomas, especialmente se elas tiverem doença profunda ou acometimento intestinal [54]. Fatores de crescimento locais associados com a metaplasia da cicatrização podem induzir à formação de pequenas lesões superficiais de endometriose nas margens cirúrgicas. Algumas pacientes podem ter alterações Müllerianas uterinas associadas, como adenomiose ou miomas, e que podem motivar cirurgias futuras. Gruenwald destacou que esse modelo pode explicar a ocorrência de endometriose em qualquer local do corpo em homens [55, 56, 57], já que todos os fetos contêm tecidos Müllerianos (nota do tradutor: que formarão órgãos genitais femininos) e Wolffianos (nota do tradutor: que formarão órgãos genitais masculinos) entre 6 a 8 semanas de desenvolvimento.

A grande probabilidade de que a menstruação retrógrada não seja a causa da endometriose é uma das principais justificativas para se aprender sobre a excisão máxima da doença, pois a cura da endometriose está ao alcance de habilidosos cirurgiões ao redor do mundo. Outro motivo para se aprender sobre a ressecção máxima é que as pacientes são verdadeiramente ajudadas pela excisão da endometriose, tornando-se uma experiência transformadora na vida de ambos: paciente e cirurgião.

... a grande probabilidade de que a menstruação retrógrada não seja a causa da endometriose é uma das principais justificativas para se aprender sobre a excisão máxima da doença, pois a cura da endometriose está ao alcance de habilidosos cirurgiões ao redor do mundo...

Nota do Tradutor: 


Queridas Leitoras do Blog A Endometriose e Eu
Na segunda parte de seu artigo, o Dr. Redwine argumenta contrariamente, item por item, as conclusões equivocadas que embasam a teoria da menstruação retrógrada de Sampson. Por exemplo, ele destaca que a hipótese da endometriose ser uma doença autoimune, causada por uma “falha na limpeza das células na cavidade pélvica”, não se sustenta. Isso simplesmente porque as células do sistema imune não atacam as próprias células endometriais da mulher, fato que supostamente ocorreria bilhões de vezes. Também não há uma maior frequência de doenças autoimunes em mulheres com  endometriose, contrariando a hipótese de que as mulheres portadoras teriam alterações em sua imunidade.
Ao final do artigo, o Dr. Redwine propõe a metaplasia celular (a transformação de um tipo de celular em outro) como a principal teoria para explicar o desenvolvimento da endometriose. Células indiferenciadas presentes fora do útero, já desde o período embrionário, se transformariam nas lesões de endometriose sob estímulo do estrogênio, ao longo de parte da vida da mulher. A metaplasia celular pode explicar endometriose em homens, em crianças, e em locais distantes da pelve, como pulmões. Apesar de lógica, a teoria é pouco aceita, por fatores diversos que abordarei em outro artigo (“Os 10 Motivos Porque Infelizmente Acreditamos que a Endometriose Seja Causada Pela Menstruação Retrógrada), muito em breve aqui no blog. 

Sobre o doutor Alysson Zanatta:
Graduado e com residência médica pela Universidade Estadual de Londrina, doutor Alysson Zanatta tem especializações em uroginecologia e cirurgia vaginal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cirurgia laparoscópica pelo Hospital Pérola Byington de São Paulo e doutorado pela Universidade de São Paulo, USP. Suas principais áreas de atuação são a pesquisa e o tratamento da endometriose, com ênfase na cirurgia de remoção máxima da doença. Seus inter­esses são voltados para iniciativas que promovem a conscientização da população sobre a doença, como forma de tratar a doença adequadamente. É diretor da Clínica Pelvi Uroginecologia e Cirurgia Ginecológica em Brasília, no Distrito Federal, onde atende mulheres com endometriose, e ex-professor-adjunto de Ginecologia da Universidade de Brasília (UnB). (Acesse o currículo lattes do doutor Alysson Zanatta).